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Maria Amélia de Queirós

Por: Semira Adler Vainsencher.

Maria Amélia de Queirós nasceu no século XIX, em Pernambuco, em uma época onde a mulher era considerada a “rainha do lar”, papel que o sistema patriarcal lhe destinou há séculos.

Culta e inteligente, ela teve uma história de vida similar às demais abolicionistas, que viveram naquele período histórico. Maria Amélia se reunia clandestinamente com integrantes do Clube do Cupim, uma sociedade secreta fundada na década de 1880, no Recife, e liderada por José Mariano, que alforriava, defendia e protegia os escravos.

Os cupins se reuniam sempre de forma secreta, os encontros ocorriam no Distrito dos Aflitos, no Recife, e a sede era chamada Panela do Cupim. Outros membros da associação eram Joaquim Nabuco, Phaelante da Câmara, João Ramos, Vicente do Café, Barros Sobrinho e Alfredo Pinto. O Clube do Cupim era uma espécie de maçonaria: não possuía diretoria, estatutos ou escrituração. As pessoas sempre se reuniam clandestinamente com um único objetivo: libertar os escravos através de todos os meios.

Do Clube do Cupim também participavam: Numa Pompílio (dentista); João Ramos (guardalivros); Leonor Porto (costureira); Gomes de Mato (comerciante e jornalista); Tomás Espiúca (ator dramático); e Manuel Joaquim Pessoa (dono de barcaças). Estas representavam um dos meios mais eficazes para a libertação dos escravos, que rumavam para a província do Ceará, terra livre onde já havia sido decretada a abolição, ou outros pontos seguros do país, onde pudessem viver em liberdade. Em várias ocasiões, Maria Amélia abrigou escravos foragidos em sua própria residência, enquanto aguardava, com segurança, a chegada das barcaças.

A abolicionista, no dia 20 de abril de 1884, foi uma das fundadoras da Ave Libertas - associação composta só de mulheres - que, utilizando os meios legais, lutava pelo fim da escravidão, combatendo as torturas, os castigos e os maus tratos impostos aos negros. Tais senhoras arrecadavam fundos para libertar os negros cativos, mediante o recolhimento de jóias e doações, cujo montante era revertido para a compra da liberdade. As reuniões do grupo tinham lugar na localidade do Poço da Panela, onde, no século XVII, funcionava o Engenho da Casa Forte, de Anna Gonçalves Paes de Azevedo.

No ano 1885, a associação Ave Libertas lançou um jornal homônimo que estampou, na primeira capa, o retrato de Leonor Porto. E, em 1886, no aniversário de um ano da abolição da escravatura no Ceará, as mulheres lançaram um outro periódico - o Vinte e Cinco de Março - que conclamava as famílias para aderirem à luta em favor da abolição, e apresentava textos e poesias escritos por mulheres e homens.

A imprensa feminina que surgiu, no Brasil, entre a segunda metade do séc. XIX e primeira década do século XX, evidenciava o alto nível de conscientização das mulheres cultas. É importante deixar registrado o quanto elas contribuíram para preparar os caminhos trilhados pela população feminina, daquela época até o presente.

Além da contribuição escrita, Maria Amélia proferia palestras públicas, em defesa da libertação dos escravos e do divórcio, e se posicionava contra a chefia masculina sobre a família. Ela publicou, também, uma coleção de biografias de mulheres célebres.

Uma das grandes vitórias da associação Ave Libertas foi a libertação de duzentos escravos. Neste sentido, as abolicionistas conseguiram que os senhores de engenho assinassem duzentas cartas de alforria. O acontecimento foi comemorado com festa e alegria.

Em outra ocasião, aquelas senhoras promoveram uma passeata pelas ruas da cidade, que contou com a participação de mais de cem abolicionistas, além de homens simpatizantes à causa. O evento obteve destaque, no dia seguinte, em vários jornais recifenses.

Após a abolição da escravatura (em 13 de maio de 1888) Maria Amélia e suas companheiras trataram de alfabetizar os ex-escravos, bem como ensinar-lhes técnicas de trabalhos manuais, visando sua inserção no mercado de trabalho.

Faz-se necessário ressaltar que, a maioria das mulheres escritoras da época eram cultas e acumulavam, além das atividades da escrita, trabalhos jornalísticos, didáticos, por vezes, profissionalizantes, e divulgavam propostas de teor feminista, sendo, umas mais, outras menos, politicamente engajadas. Os temas que abordavam eram o da abolição da escravatura e o fim da monarquia. Nos jornais masculinos, por outro lado, as matérias publicadas em relação à mulher abordavam os temas da maternidade e das “prendas domésticas”.  

Maria Amélia era colaboradora, também, no jornal A Família, editado e publicado por Josefina Álvares de Azevedo, em São Paulo. As matérias desse jornal enfatizavam que, apenas através de uma educação completa, a mulher poderia elevar seu status na sociedade; defendia o divórcio e as campanhas pelo voto feminino. Mais que somente um periódico, havia uma extensa rede formada pelas mulheres escritoras que mantinham, entre si, um grande intercâmbio e fortes relações de solidariedade.

Não se sabe a data em que Maria Amélia de Queirós faleceu. O mais importante, porém, foi o legado que ela deixou para a população feminina.  

Fontes consultadas:

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http://www.triplov.com/teatro/Valeria-Andrade/2006/Militancia.htm Acesso em: 19 jul. 2009.

COELHO, Nelly Novaes. A emancipação da mulher e a imprensa feminina (séc. XIX – séc. XX). Disponível em:

http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=119&rv=Literatura Acesso em: 19 jul. 2009.

GOTLIB, Nádia Battella. A literatura feita por mulheres no Brasil. Disponível em:

http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/artigo_Nadia_Gotlib.htm Acesso em: 18 jul. 2009.

LITERATURA. Disponível em:

http://www.geocities.com/polemicas_2000/literatura/poesia/poesia2.htm Acesso em: 19 jul. 2009.

NÍSIA Floresta. Disponível em:

http://www.projetomemoria.art.br/NisiaFloresta/pen_contra_a_e.html Acesso em: 17 jul. 2009.

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http://br.geocities.com/izirbel/tabelamulheres.html Acesso em: 18 jul. 2009.