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Amélia Brandão
 

Amélia Brandão

Por: Semira Adler Vainsencher.

Maria Amélia Brandão Nery - mais conhecida como Amélia Brandão e, no futuro, como Tia Amélia - nasceu em Jaboatão no dia 25 de maio de 1897, no seio de uma família de músicos. O pai era clarinetista, solista de violão e maestro da banda da cidade e, a mãe, tocava piano. A residência de Amélia localizava-se no final da Rua Duque de Caxias, em frente a Praça Santos Dumont, próxima aos Correios de Jaboatão Centro e à Igreja Primeira Batista de Jaboatão.

Aos quatro anos de idade, Amélia já tocava piano “de ouvido”; aos seis, iniciou as aulas de música; e, aos doze anos, compôs a valsa Gratidão. Seu maior desejo era o de ser artista, porém, o pai e, depois, o marido, proibiram que seguisse tal carreira. Apesar disso, ela fazia pesquisas sobre o folclore brasileiro, que serviram de tema para suas composições.

Aos dezessete anos, ela se casou com um rico fazendeiro escolhido por seu pai, deixou o engenho Jardim, em Moreno, e foi morar em Jaboatão, na fazenda do sogro. Este faleceu dois anos após o matrimônio do filho, que, de maneira desregrada, dissipou toda a herança recebida. Tamanho foi o acúmulo de dívidas que, dentro de pouco tempo, o engenho e a fazenda tiveram de ser vendidos. Após a perda total dos bens, o marido de Amélia não resistiu, e morreu vitimado por um colapso, deixando-a viúva aos vinte e cinco anos de idade e com quatro filhos pequenos para criar. Desesperada e sem recursos para sustentá-los, ela passou por muitas privações, e chegou ao ponto de vender o próprio piano para alimentar a família.

Certo dia, ao se apresentar em um recital de caridade, deixou entusiasmado, com sua interpretação, o governador de Pernambuco. Graças ao seu apoio, empreendeu uma turnê de seis anos, durante a qual pôde se realizar como pianista internacional. Em 1933, a convite do Itamaraty, Amélia se apresentou nas três Américas com sua filha, a cantora Silene de Andrade.

Em Washington, Estados Unidos, jantou com o presidente Franklin Delano Roosevelt, e foi amiga de celebridades, a exemplo das atrizes Greta Garbo e Shirley Temple. Como artista, representava o Brasil, a pedido do presidente Getúlio Vargas. Foi contratada por uma emissora de rádio da cidade de Schenectady, onde trabalhou cinco meses, sob o patrocínio da empresa General Electric. Posteriormente, trabalhou em New York e New Orleans.

Quando retornou ao Recife, após sucesso no exterior, foi contratada como pianista pela Rádio Clube de Pernambuco e pelo Jornal do Comércio, e, de lá, deu início ao trajeto artístico pelo país. Resolvida a esclarecer uma questão de direitos autorais, que surgiu com a gravação de uma composição sua sem autorização, na Odeon, Amélia viajou para o Rio de Janeiro, em 1929.

Lá chegando, contrataram-na para se apresentar em um concerto no antigo Teatro Lírico, onde obteve grande êxito, passando a ser chamada “a coqueluche dos cariocas”. Trabalhou em diversas emissoras de rádio, e chegou a tocar piano com o compositor Ernesto Nazareth. Na Odeon, além de ter ganhado seus direitos autorais, foi convidada para gravar um disco.

A repercussão de suas apresentações levou-a a tocar nas rádios Mayrink Veiga, Sociedade e Clube do Brasil. Trabalhou na Rádio Nacional, no Clube da Chave e em outros clubes cariocas. Em São Paulo, atuou durante três meses nas TV Record, TV Tupi (onde fez um retrospecto da época áurea do choro brasileiro) e TV Paulista (hoje, TV Globo).

No ano 1937, Amélia já ganhara o suficiente para ter uma vida abastada. Após o casamento de sua filha, ela se apresentou só uma vez no Teatro Municipal, decidida a encerrar sua carreira e não mais tocar em público. Foi morar em Marília (São Paulo) e, depois, em Goiânia (Goiás). Passava os dias escrevendo músicas e tocando piano, mesmo sem ouvintes.

Em 1954, no entanto, incentivada por Carmélia Alves e Ari Barroso, regressou ao meio artístico. Na época, já conhecida como Tia Amélia, apelido que lhe deu o cantor e compositor Roberto Carlos, ela apresentou o programa Velhas Estampas, na TV Rio, onde tocava chorinhos antigos e contava histórias de sua juventude.

Tia Amélia é a segunda mulher mais importante da história do Choro, antecedida, apenas, por Chiquinha Gonzaga. No piano, em Pernambuco, só fizeram sucesso três grandes expoentes da música brasileira: Tia Amélia, Nelson Ferreira e Capiba.

Dentre os belos sambas, valsas e choros que compôs, destacam-se: Dois namorados, Chora coração, Obrigada Goiás, Sem nome, Bordões ao luar (nome que foi escolhido pelo poeta Vinícius de Moraes), As valsas, Sorriso de Bueno, Cavalo marinho, Cuíca no choro, Carmélia, Quilombo dos Palmares, Batuque pra meus netos, Chora coração, Nos cafundó do coração, Dulce, Meu poeta (dedicada a Vinícius de Moraes), Os choros, Recordando Patápio, Casa da farinha, Silene, Bom dia Radamés, Preta sinhá, Oh, Chiquinha!, A minha viola é de primeira, Choro serenata, Maria Alice, Cochilos na penumbra, Revoltado, Ouvindo a Gaya, Os frevos, Mosquita e Capelinha de melão.

A talentosa instrumentista e compositora, Amélia Brandão, faleceu em Goiás, em 1983.

No que diz respeito à discografia, Amélia Brandão gravou os trabalhos Valência/Revoltado, com a Banda Vila Rica; Cuíca no choro/Bom dia Radamés Gnattali, pela RCA Victor; Velhas estampas, que contou com o acompanhamento da Banda Vila Rica, pela Odeon; Musicas da vovó no piano da titia, pela Odeon; e À benção, Tia Amélia, LP, CD, pela Marcus Pereira, quando já tinha oitenta e três anos. Com a gravação deste último trabalho, ela recebeu o prêmio de melhor solista e compositora do ano.  

Quem desejar conhecer mais sobre a vida de Amélia Brandão, pode consultar o livro Relembrando Tia Amélia, de autoria de Adiuza Vieira Belo, que se encontra disponível no acervo do Instituto Histórico de Jaboatão.

Apesar da relevância de Maria Amélia Brandão Nery, vale registrar que sua antiga residência, em Jaboatão, encontra-se, hoje, abandonada e correndo sérios riscos de ser demolida, em decorrência de um impasse jurídico sobre a propriedade da casa. Neste sentido, enquanto a morosa Justiça não resolve a questão, e os herdeiros não tomam posse do imóvel, mais um importante patrimônio do povo jaboatonense corre o risco de desaparecer.

Fontes consultadas:

ANIVERSARIANTES do dia – lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. Disponível em:

http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0205/0993.html Acesso em: 17 ago. 2009.

DAVIDSON, James. Casa de Amélia Brandão – Mais um patrimônio histórico ameaçado. Disponível em:

http://jaboataodosguararapes.blogspot.com/2007/12/casa-de-amlia-brando-mais-um-patrimnio.html Acesso em: 17 ago. 2009.

GIRO Metropolitano – Jaboatão tem patrimônio a explorar. Disponível em:

http://www.infojurisltda.com.br/home/Noticias.php?inc=detail&id=55285&over= Acesso em: 17 ago. 2009.

JACKSON, Mauro. História do piano no Brasil. Disponível em:

http://piano.kit.net/pianonobrasil.htm Acesso em: 17 ago. 2009.

MEMORIAL da fama. Disponível em:

http://www.memorialdafama.com/biografiasRZ/TiaAmelia.html Acesso em: 17 ago. 2009.

NO projeto “Grande Hotel Revive o Choro” a atração é o grupo Queiroz Brother. Disponível em:

http://www.abn.com.br/editorias1.php?id=43137 Acesso em: 17 ago. 2009.

QUANDO as mulheres passaram a ser reconhecidas em artes no Brasil? Disponível em:

http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080604182922AAUElaN Acesso em: 17 ago. 2009.

QUEM compôs o chorinho “Bordões ao Luar”? Disponível em:

http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080611154935AAhriB0 Acesso em: 17 ago. 2009.

SCHUMAHER, Shuma; BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade.  Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

TIA Amélia (Amélia Brandão Néri). Disponível em:

http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?tabela=T_FORM_A&nome=Tia+Am%E9lia Acesso em: 17 ago. 2009.