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Leonor Porto

Por: Semira Adler Vainsencher.

Leonor Porto nasceu em Pernambuco, por volta da segunda metade do século XIX, mas não se conhece a data precisa. Ela exerceu as funções de costureira e modista, tendo vestido a denominada fina flor da sociedade recifense. Este foi o lado profissional e público da vida de Leonor. Houve um outro lado, porém, que, muito embora existisse, ela não podia deixar transparecer: o da abolicionista ferrenha e corajosa, que lutava contra a escravidão.

Leonor foi membro da associação emancipatória Clube do Cupim, uma sociedade secreta fundada na década de 1880, no Recife, que alforriava, defendia e protegia o(a)s escravo(a)s, sob a liderança de José Mariano. Os demais integrantes do Clube do Cupim foram, entre outros: Joaquim Nabuco (historiador, jurista e diplomata), Tomás Espiúca (ator dramático), Alfredo Pinto (jurista), Numa Pompílio (dentista), João Ramos (guardalivros), Gomes de Mato (comerciante e jornalista), e Manuel Joaquim Pessoa (dono de barcaças). Os cupins se reuniam, sempre, de forma secreta. Os encontros ocorriam no Distrito dos Aflitos, e a sede se chamava Panela do Cupim.

O clube funcionava como uma espécie de maçonaria: não possuía diretoria, estatutos ou escrituração, tendo, apenas, um único objetivo: libertar o(a)s escravo(a)s por todos os meios. Neste sentido, há que se destacar o relevante papel exercido pelas barcaças. Nelas, os abolicionistas colocavam os negros cativos, e os remetiam para o Ceará. Esta terra era livre porque, lá, a abolição já havia sido decretada.

Excetuando-se o Ceará, por vezes, o(a)s escravo(a)s iam para outros pontos seguros do Nordeste, onde a liberdade estivesse garantida. E Leonor abrigava o(a)s escravo(a)s foragido(a)s em sua própria casa, velando por ele(a)s, enquanto não houvesse segurança para o embarque nas barcaças, rumo aos locais seguros.

As idéias abolicionistas da época foram difundidas, ainda, por outras pernambucanas, a exemplo de Maria Amélia de Queirós. No ano 1887, Maria Amélia proferiu várias palestras públicas em defesa da abolição, rompendo com os padrões conservadores do século XIX. Tanto Leonor quanto Maria Amélia ousaram sair dos casulos sociais e políticos, impostos ao sexo feminino, e combateram a escravidão, libertando um sem número de escravo(a)s, e prestando um relevante serviço em prol da liberdade humana.

No dia 20 de abril de 1884, Leonor Porto fundou e presidiu uma outra associação, composta apenas de mulheres: a Ave Libertas. Esta, porém, lutava pela libertação do(a)s escravo(a)s, somente, por meios legais, combatendo os maus tratos, as torturas e os castigos físicos impostos pelos senhores. As abolicionistas arrecadavam fundos para libertar o(a)s cativo(a)s, através de doações e do recolhimento de jóias, que eram revertidas em função da compra de sua liberdade. Por sua vez, também escondiam negros fugitivos, e providenciavam as viagens, em barcaças, para a província do Ceará.

As reuniões da Ave Libertas ocorriam no Poço da Panela, onde, no século XVII, ficava situado o Engenho da Casa Forte, de Anna Gonçalves Paes de Azevedo, mais conhecida como a senhora Anna Paes. Em 1885, aquela associação lançou um jornal homônimo, cuja primeira capa estampava o retrato de Leonor Porto.

E, no ano 1886, por ocasião do aniversário de um ano da abolição da escravatura no Ceará, as mulheres lançaram um outro periódico: o Vinte e Cinco de Março. Nele, Leonor Porto conclamava as famílias para aderirem à luta em prol do fim da escravatura, apresentando também textos e poesias escritos por mulheres e homens abolicionistas. Desse periódico participaram, inclusive, as senhoras Maria Amélia Queirós e Inês Sabino.   

A libertação de duzentos escravos foi uma das grandes vitórias da Ave Libertas. Neste sentido, as mulheres conseguiram que os senhores de engenho assinassem duzentas cartas de alforria. O acontecimento foi comemorado com festa e muita alegria. Em outra ocasião, elas promoveram uma passeata pelas ruas do Recife, com mais de cem abolicionistas, e a participação de vários homens que simpatizavam com a causa. O evento obteve destaque nos jornais da cidade.

Após o 13 de maio de 1888, dia da abolição da escravatura, Leonor e suas companheiras “arregaçaram as mangas” e deram início à alfabetização do(a)s ex-escravo(a)s, bem como ao ensino de técnicas de trabalhos manuais, para que ele(a)s pudessem se capacitar, e tivessem melhores condições de se inserir no mercado de trabalho.

Leonor Porto faleceu em 1906, no Rio de Janeiro, com cerca de sessenta anos de idade. Um dos jornais fluminenses noticiou a morte da abolicionista. Como uma justa homenagem, seu nome foi colocado em um estabelecimento de ensino de São Lourenço da Mata: trata-se da Escola Dona Leonor Porto – Parque Capibaribe.

Fontes consultadas:

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http://br.geocities.com/ntemg9uberlandia/HP/reflexao_luta_mulheres.html Acesso em: 15 jul. 2009.

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SCHUMAHER, Shuma; BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade.  Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

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